sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Donos de terras entre Anápolis e Nerópolis lucram ao cobrar pedágio

Diferentemente dos vizinhos, três produtores rurais do interior goiano faturam alto com a morosidade do Estado. Desde abril, eles cobram pedágio dos mais de mil veículos que transitam diariamente pela GO-222, entre Anápolis e Nerópolis. Para evitar um desvio de 80km, em função da queda da ponte de concreto sobre o Ribeirão João Leite em dezembro, a maioria paga a taxa de R$ 2 (moto), R$ 5 (carro) ou R$ 10 (caminhonete), que lhe dá direito a passar em 100m de terra particular e sobre um arcaico acesso de madeira. O negócio rendeu pelo menos R$ 1,2 milhão aos proprietários, o mesmo pago pelo governo de Goiás pela nova ponte da rodovia estadual.
Agora, os donos das fazendas onde fica a ponte de madeira particular tentam retardar o retorno do tráfego normal pela GO-222, principal caminho entre Brasília e a histórica cidade de Goiás, mais conhecida como Goiás Velho. Tanto que a construtora responsável pela obra pediu, na noite de quarta-feira, a presença de PMs, após receber ameaças de explosão da ponte de concreto, concluída naquele dia. À reportagem do Correio, que passou pela via na quarta, um homem que recolhia o dinheiro dos motoristas se apresentou como um dos três responsáveis pela fazenda. Ele disse estar “preocupado” com a segurança da construção ao lado.
A reportagem apurou que o pedágio fica na fazenda de Gilberto Xavier, mas alcança uma parte das terras de outros dois fazendeiros. Xavier é o autor da ideia da construção do desvio, do acesso de madeira e da cobrança. Ele não foi encontrado. A ponte particular tem um vão de 15 metros e capacidade para suportar até 6 toneladas, segundo informações contidas nas placas colocadas na entrada do pedágio improvisado. O sinal também mostra os valores das taxas.
A assessoria de comunicação da Agência Goiana de Transportes e Obras Públicas (Agetop) alegou não poder fazer nada contra o negócio, porque fica em propriedade privada. O órgão afirmou estar ciente das ameaças à obra pública e confirmou o envio de uma equipe da PM. Garantiu que o tráfego na nova ponte havia sido liberado “no fim da tarde de quarta-feira”. No entanto, ao ser informada que o jornal esteve no trecho no mesmo dia, a Agetop disse que o trânsito retornaria ao normal ontem.
Contudo, para que todo tipo de veículo pudesse passar pela estrutura de 30m de extensão, ainda eram necessários os serviços de pavimentação de cerca de 200m de estrada, nos dois lados do acesso. Com a terra completamente solta, a pista no Km 15 da GO-222 virou um lamaçal devido às constantes chuvas. Ainda na noite de quarta-feira, quando, segundo a Agetop, a ponte estaria liberada, funcionários tentavam acabar com a erosão em uma das cabeceiras. Usavam pedras para dar sustentação ao monte de terra, à margem do córrego que derrubou a antiga construção nas fortes chuvas de 6 dezembro.
À época sem previsão de reparo da estrutura quebrada ao meio, moradores da região passavam o dia jogando terra e cascalho no meio das duas metades caídas no Ribeirão João Leite. Os motoristas se arriscavam a passar pela pista improvisada e perigosa, mediante um pedágio que variava de R$ 10 a R$ 20. Mas não havia placas, obrigação de pagar a taxa nem donos. Em março, a Agetop interveio e destruiu o que restou da antiga obra. Mas somente em 17 de julho, já com o desvio e o pedágio em terras privadas, teve início a construção da nova ponte.
No começo de outubro, o órgão anunciou a conclusão do novo acesso e a liberação do tráfego para o dia 15. Depois, adiou a inauguração para o “fim do mês”. Na quarta-feira, o engenheiro Paulo César Vaz de Melo, dono da empreiteira responsável pela intervenção, supervisionava a construção no intuito de concluí-la no mesmo dia. Mas ele conseguiu limpar toda a área apenas durante a madrugada. “Mesmo sem a pavimentação, liberamos o tráfego em caráter provisório em função do pedágio. O asfalto deve ser colocado em cinco ou seis dias”, disse. Ele confirmou o pedido de policiamento por causa das ameaças.
Apuração
Mesmo com a liberação do trânsito na pista inacabada, o pedágio dos fazendeiros continua em pleno funcionamento. Desavisados motoristas pegam o desvio e entram nas propriedades privadas. “Isso me lembra São Paulo. A diferença é que lá a gente paga pedágio para andar em estradas que são como um tapete e ter assistência em caso de acidente”, comentou o representante comercial Carlos Antônio da Silva, 39 anos, funcionário de uma empresa paulistana.
Os mais prejudicados são os moradores de Goialândia, município de mil habitantes que fica no meio do estrada. Muitos trabalham, estudam e têm compromissos em Anápolis, a cidade de maior infraestrutura da região, distante 17 km, do outro lado da ponte. Só vans escolares estão dispensadas do pagamento.
A assessoria do Ministério Público de Goiás informou que a 11ª Promotoria de Justiça de Anápolis apura a legalidade da cobrança e a possível responsabilidade do Estado.

Prejuízos na agricultura

No caso da GO-222, as autoridades goianas reagem de maneira diferente em relação a outras quedas de pontes em rodovias que cruzam o estado vizinho ao Distrito Federal. Em abril, bastou o delegado Vicente Stábile ameaçar de prisão um fazendeiro para ser suspensa a cobrança de pedágio na GO-060, entre São Luís de Montes Belos e Iporá.
A pista estava interditada por causa de um bueiro rompido pela chuva. Os motoristas eram obrigados a pagar R$ 10 para passar por um desvio paralelo à via, cobrança feita pelo dono da propriedade rural onde estava o precário desvio de terra batida. Com a possibilidade de cadeia, todos atravessaram a terra sem pagar pedágio, até a reforma.
Também a caminho de Goiás Velho, a chuva levou um acesso de concreto no trecho urbano da GO-070, em Itaberaí (GO), em 4 de janeiro. Primeiro, os motoristas tinham de encarar um desvio de 20km por estradas de terra esburacadas e enlameadas, que aumentava a viagem em até uma hora e meia. Eles passavam por várias propriedades particulares, mas não havia cobrança.
Para minimizar o tormento, a Agetop recorreu ao Exército, que enviou engenheiros. Eles ergueram uma ponte metálica provisória. Desenhada para uso em guerra, a estrutura ficou pronta 10 dias após a queda da ponte de concreto. Até a conclusão e a liberação ao tráfego do novo acesso, em 4 de julho, ao custo de R$ 3,8 milhões para os cofres do estado, ninguém pagou qualquer taxa.

Perdas
Ainda há 28 pontes destruídas nas rodovias que cruzam Goiás. A maioria, como a da rodovia entre Anápolis e Nerópolis, caiu nas chuvas do fim do ano passado. Muitas não têm previsão de reconstrução, segundo a Agetop. Com base em levantamento feito pelos sindicatos rurais goianos, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Goiás (Faeg) apontou precariedade em 70 trechos de 46 rodovias locais. Ao todo, são 2 mil quilômetros, que ligam 20 municípios, responsáveis por mais de 95% da produção de grãos, carnes e leite.
O estudo, concluído há uma semana, foi entregue à Agetop. O órgão admitiu que, das obras licitadas para reerguer 2 mil quilômetros de rodovias estaduais, só a metade deve ser concluída antes da virada do ano. Com isso, segundo a Faeg, Goiás perderá cerca de 700 mil dos 15 milhões de grãos a serem colhidos na safra agrícola de 2011.
Obras de recuperação de trechos maiores, como a de parte da GO-222, com duas interdições parciais do trânsito entre Nerópolis e Anápolis, só começaram no mês passado. Não há previsão para a conclusão do serviço na estrada que leva a Goiás Velho. Há problemas também em rodovias federais que cortam Goiás. Mais usada pelos brasilienses, a BR-060, que leva a Goiânia, passa por obras de duplicação. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) prepara uma série de desvios por estradas de terra. Só 70km estarão prontos até dezembro.
Fonte: Correio Braziliense

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