quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Manobrista empresta carro de médica para amigos

Um manobrista de um estacionamento particular em Higienópolis, bairro nobre na região central de São Paulo, recebeu o carro de uma médica que trabalha na Avenida Angélica, mas, em vez de guardá-lo, acabou “emprestando” o veículo a dois amigos que queriam ir a Caieiras, na Grande São Paulo, na noite deste sábado (29). O que parecia uma irregularidade sem maiores consequências, já que a dona do veículo estava de plantão até domingo (30) e provavelmente não ia desconfiar de nada, se tornou uma tragédia irreparável. Um dos colegas do manobrista que dirigia o Kia Carens da pediatra teria feito uma conversão proibida na Estrada Velha de Campinas ao tentar ultrapassar uma carreta, que momentos antes havia derrapado e batido na lateral de um Fiat Palio Weekend. Ao fazer o contorno, o Kia teria ido para a contramão e colidido, de frente, com o Palio, que seguia no sentido correto.
Dentro do Palio estavam as jornalistas Ligia Maria Celeguim Tuon e Denise Pimentel Spera, ambas com 25 anos, e o professor de informática Bruno Tuon Perim, de 27. Denise e Bruno morreram por causa da colisão. Ela era a condutora. Bruno estava no banco de passageiros e era primo de Ligia. As vítimas foram sepultadas no domingo em Caieiras.
“Quando o delegado me ligou, estava no hospital atendendo uma criança em crise. Fiquei e ainda estou chocada realmente. Não sei o que dizer. Não sei o que passou na cabeça desse funcionário que tirou o carro de alguém. O estacionamento está me dando toda a assistência. Disseram que vão arcar com as despesas. Deu perda total. Mas o pior está do outro lado. Fico com pena dessas famílias que perderam seus filhos", afirmou a médica proprietária do Kia. Ela só aceitou falar com o G1 sob a condição de que seu nome não fosse divulgado.
"A gente sempre deixa o carro achando que ele está seguro. Agora terei de rever onde deixo meu carro. O estacionamento fica perto do trabalho. Trabalho lá há dois anos e nunca havia tido qualquer problema até agora”, afirmou.
SobreviventeA jornalista Ligia Maria Celeguim, única sobrevivente do Fiat, afirma que estava chovendo na hora do acidente e que a curva era muito perigosa. "Eu estava no banco da frente. Eu vi a carreta desarticulando em ‘L’, derrapou para nosso lado. Teve várias pancadas violentas. Para mim nem tinha outro carro participando do acidente. O motorista do caminhão parou um pouco à frente. Ele não me resgatou nem aos outros. Fiquei bastante machucada. Fiquei com labirintite. Lesionei o pulmão direito. O cinto queimou meu ombro e a barriga. Estou com bastantes escoriações. Eu não sei dizer se foi falha do motorista do caminhão ou do outro carro que bateu depois no veículo onde eu estava.”.
A jornalista Denise Spera tinha 25 anos
“Espero que haja justiça com o que ocorreu com minha filha, que os culpados respondam pelos atos errados que fizeram. Esses indivíduos que pegaram um carro indevidamente de uma médica em São Paulo e foram para Caieiras têm de responder pelo furto do veículo e pela morte da minha filha e do amigo dela”, disse Waldemar Spera, pai de Denise, que autorizou o G1 a divulgar a foto da filha.
carta em memória da filha do casal, Denise. "No dia 30 de junho de 1986 Deus te colocou no mundo e no dia 8 de julho ganhei o presente mais valioso que o ser humano pode ganhar. Foi aquela “rosa” com olhinhos azuis, cabelinhos de fios de ouro, clarinha como a neve. Foi assim que te vi pela primeira vez. Desde este momento minha vida se transformou, foram só grandes conquistas, grandes realizações, momentos surpreendentes, tudo, tudo que o ser humano pede a Deus, e eu fui beneficiada com essa graça de receber de Deus a minha Denise", escreveu, em um dos trechos.
Formada em jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, Denise havia feito curso de inglês em Londres e estava trabalhando como consultora de marketing em uma empresa na capital paulista. “Ela era uma filha dedicada, não se cansava de estudar”, afirmou Waldemar, que analisa a possibilidade de entrar com algum processo contra o estacionamento onde trabalha o manobrista que “cedeu” o carro da cliente irregularmente para as pessoas que participaram do acidente com a carreta que resultou na morte de Denise e Bruno.
InvestigaçãoO caso foi registrado na Delegacia do Centro de Caieiras. O manobrista Jhonatan Paulino Alves dos Santos, de 22 anos, seus amigos, Higor Costa Araújo e Nivaldo Castro, que estavam no Kia, e o motorista do caminhão, José Benedito dos Santos Filho, de 38 anos, foram responsabilizados individualmente pela Polícia Civil.
O manobrista Jhonatan foi indiciado nesta segunda-feira (31) por apropriação indébita por ter pego o carro da médica e entregue sem autorização dela aos dois colegas. Em depoimento à polícia, ele disse que os amigos queriam ir para uma festa em Caieiras.
Higor, que conduzia o Kia, e José Benedito, motorista da carreta, foram acusados pela polícia por homicídio culposo na direção de veículo automotor. Higor e Nivaldo ainda estão sendo responsabilizados por fugir do local do acidente sem prestar socorro às vítimas.
Como o caso envolve um crime culposo, sem intenção, a polícia não pediu a prisão dos investigados. Todos vão responder aos crimes em liberdade. Numa eventual condenação, a pena para cada um pode chegar até seis anos de prisão.

"Decidimos responsabilizar os dois motoristas pelas mortes. Ainda aguardamos laudos da perícia técnica que irá indicar outros detalhes sobre o acidente que serão incluídos no inquérito, como velocidade do Kia e do caminhão. E também saber quem atingiu primeiro o Fiat da jornalista", disse o delegado Fábio Lopes Cenachi, da Delegacia Central em Caieiras. Segundo ele, o motorista do caminhão não apresentava sinais de embriaguez e, por isso, não realizou nenhum exame de dosagem alcoólica. Já o condutor do Kia fugiu no sábado e só reapareceu um dia depois e, por esse motivo, também não passou pelo teste do bafômetro.

O advogado Nelsimar Pincelli, que defende Jhonatan, afirmou que seu cliente não irá falar com a imprensa sobre o caso. Em sua defesa, ele informou que o manobrista afirmou à polícia que emprestou o automóvel para os colegas. “Meu cliente tem acesso aos carros e acabou por uma infelicidade emprestando o carro de terceira pessoa para um conhecido dele. Ele está arrependido. Ele emprestou alguma coisa que não era dele. Ele jamais poderia prever esse tipo de evento. Foi demitido.”
O que diz o estacionamentoO manobrista Jhonatan trabalhava no estacionamento Rit, que fica na Avenida Angélica. O G1 procurou a assessoria de imprensa da AllPark Estacionamento, razão social do local, para comentar o assunto, que divulgou uma nota a respeito:
"Em esclarecimento sobre o furto de veículo ocorrido em garagem administrada pela Estapar, no dia 29 de outubro de 2011, a empresa informa: Ao tomarmos ciência de que o veículo da cliente havia sido furtado, imediatamente tomamos todas as providências necessárias para esclarecer os fatos. Desde o primeiro momento, oferecemos total suporte a cliente e nos responsabilizamos integralmente pelo ressarcimento do veículo, cuja reposição está sendo providenciada. Diante do sinistro, todas as providências administrativas foram tomadas pela Estapar. Os demais fatos acontecidos após o furto do veículo foram ocasionados por terceiros e cabe às autoridades competentes investigar e punir os eventuais culpados."
O G1 não conseguiu localizar Higor, Nilvado e José para falar sobre o caso. Em depoimento à polícia, os rapazes que estavam no Kia deram uma versão diferente da do manobrista e do motorista do caminhão. Segundo os amigos de Jhonatan, eles queriam o carro emprestado para levar uma criança a Caieiras. Sobre o acidente, eles disseram que a carreta estava atravessada na pista e o automóvel onde eles estavam bateu em seguida nela. Como eles estavam com uma criança dentro do carro e o veículo não era deles, fugiram.
Mas o condutor do caminhão disse que foi o Kia que colidiu com o Fiat, que, posteriormente, esbarrou no “cavalo” do seu veículo.
Fonte: G1

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